domingo, 16 de junho de 2013

Unicamp vai equiparar salários aos pagos pela USP

Processo será adotado gradativamente e será finalizado em 2015

José Tadeu Jorge assume reitoria da Unicamp pela segunda vez
Isonomia salarial é prioridade de José Tadeu Jorge, reitor da Unicamp desde abril (Divulgação Unicamp)
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) iniciará o processo de isonomia salarial com a Universidade de São Paulo (USP). Em dois anos, a Unicamp quer equiparar os pisos salariais dos 7.700 funcionários de carreira, que estão com uma defasagem de até 56%, em alguns casos, desde 2011.
O processo de aumento dos salários começará em julho, com a elevação de até 15% dos pisos para todas as categorias. Nessa primeira etapa, serão beneficiados 4.200 servidores. Atualmente, os pisos salariais da Unicamp são de 1.393,14 reais para funcionários de módulo fundamental, 2.058,32 reais para os de módulo médio e 3.881,35 reais para os de módulo superior. Na USP, esses pisos são, respectivamente, de 1.768,29 reais, 3.212,36 reais e 6.040,48 reais.
Com essa primeira etapa de aumentos, os pisos da Unicamp vão para 1.699,73 reais (fundamental), 2.511,20 reais (médio) e 4.735,32 reais (superior). "Nesse primeiro momento, o impacto para a Unicamp será muito baixo. Foi apresentado um gasto de 11 milhões de reais a mais de julho a dezembro por conta dessa fase", afirmou o diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), Diego Machado de Assis.
No segundo semestre, a Unicamp concederá mais um aumento de 5% para todos os servidores e a promoção de 20% deles, dentro de um processo de avaliação de desempenho que ocorrerá em outubro, dando direito a mais um reajuste de mais 5% para os beneficiados. O processo visa evitar o achatamento dos pisos dos funcionários mais antigos. Essa segunda etapa implicará um aumento de gastos de 2 milhões de reais ao mês.
A proposta de isonomia entregue pelo reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge, ao STU na terça-feira prevê que em 2014 serão efetivamente equiparados os pisos salariais da universidade com os da USP para os cargos fundamental e médio. Em 2015, serão igualados os pisos dos cargos de nível superior, totalizando um aumento de gastos de 50 milhões de reais.
Em nota, a reitoria afirmou que a proposta "busca de forma responsável restabelecer a igualdade entre os pisos salariais" no período de dois anos, "preservando o necessário equilíbrio orçamentário e financeiro".
Ao assumir o cargo em abril, o reitor definiu o tema da isonomia como prioritário. "Há um descontentamento e uma certa injustiça, porque são duas universidades irmãs, sob o mesmo sistema. O mais grave, institucionalmente, é que estamos perdendo funcionários para a USP", afirmou o reitor na ocasião.


(Com Estadão Conteúdo)
As informações são da Veja.

Lênio Streck: 'A PEC 37 é feita para punir os acertos do Ministério Público'

Procurador de Justiça do Rio Grande do Sul e autor de diversas obras jurídicas afirma que a emenda constitucional para impedir o Ministério Público de investigar é uma tentativa de enterrar investigações contra políticos no Brasil

Laryssa Borges, de Brasília
 Lenio Streck, promotor de justiça do Rio Grande do Sul
Lenio Streck, promotor de justiça do Rio Grande do Sul (Divulgação)
"Até as pedras sabem que a exclusividade da polícia geraria um enorme prejuízo de qualidade nas investigações"
No próximo dia 26, a Câmara dos Deputados colocará em votação, com ou sem acordo, segundo o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), a emenda constitucional número 37, que pretende tirar do Ministério Público o poder de conduzir investigações criminais. Se for aprovada, a emenda colocará o Brasil numa infausta lista que reúne Quênia, Uganda e Indonésia, países onde o Ministério Público é amordaçado. Para o procurador de Justiça do Rio Grande do Sul Lenio Streck, professor da Scuola Dottorale Tulio Scarelli, em Roma, e da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a medida é uma tentativa de enterrar investigações sobre políticos. “O Ministério Público é pago para defender interesses públicos que historicamente serviram a uma minoria. Contrariar esses interesses é fazer inimigos”, disse ao site de VEJA.

Leia também: Querem calar o Ministéiro Público
A tese da exclusividade da polícia nas investigações, conforme prevê a PEC 37, prejudicaria órgãos que se dedicam à apuração de ilícitos penais, incluindo a Receita Federal e o Banco Central. Quantos processos poderiam ser paralisados? É difícil falar em números. Talvez fosse melhor falar em déficit qualitativo. A história nos mostra que Banco Central, Tribunal de Contas e outros órgãos são fundamentais na apuração dos crimes do “andar de cima” da sociedade. Esse talvez seja o principal problema que a PEC 37 parece querer esconder. Não há nenhum indicativo que o combate aos crimes do colarinho branco e similares venha a ser melhorado pela PEC. Ao contrário: até as pedras sabem que a exclusividade da polícia geraria um enorme prejuízo de qualidade nas investigações. 
O MP frequentemente investiga parlamentares e é muito comum que ele apresente denúncias contra deputados e senadores. A aprovação da PEC poderia ser uma retaliação às investigações que incomodam? O Ministério Público cometeu erros nestes 25 anos. Todos cometem erros. Mas a PEC 37 é feita para punir os acertos do Ministério Público. O Ministério Público é pago para defender interesses públicos que historicamente serviram a uma minoria. Contrariar esses interesses é fazer inimigos, por assim dizer. Quem acusa não agrada aos réus ou potenciais réus. O que me intriga é o Brasil querer ser comparado a Uganda e Indonésia. Se todos buscamos inspiração no direito constitucional alemão, escrevemos centenas de teses imitando os alemães e espanhóis, por que é que na investigação criminal queremos imitar o país de Idi Amin Dada [ex-ditador de Uganda]?

O que diz a PEC 37

A PEC define como competência "privativa" da polícia as investigações criminais ao acrescentar um parágrafo ao artigo 144 da Constituição. O texto passaria a ter a seguinte redação: "A apuração das infrações penais (...) incumbe privativamente às polícias federal e civis dos estados e do Distrito Federal." 

  1. O que diz a Constituição:A legislação brasileira confere à polícia a tarefa de apurar infrações penais, mas em momento algum afirma que essa atribuição é exclusiva da categoria policial. No caso do Ministério Público, a Constituição não lhe dá explicitamente essa prerrogativa, mas tampouco lhe proíbe. É nesse vácuo da legislação que defensores da PEC 37 tentam agora agir. 
  2. Votação:
    As propostas de emenda à Constituição, como a PEC 37, tem um regime diferenciado de votação e, para serem aprovadas, exigem quórum mínimo de 3/5 de votos favoráveis do total de membros da Casa (308 votos na Câmara e 49 no Senado) e apreciação em dois turnos tanto na Câmara quanto no Senado.
O STF utilizou extensivamente as investigações que o MP fez do escândalo do mensalão e acabou condenando 25 pessoas. Com a aprovação da PEC, casos de sucesso como esses serão raros? Podem acabar? O mensalão é uma pedra no sapato dos defensores da PEC 37. Se não fosse o Ministério Público, processos dessa envergadura não teriam chegado a esse patamar. Historicamente, pode-se dizer que la ley es como la serpiente, solo pica a los descalzos [a lei é como a serpente, só pica os descalços]. Os poderosos sempre se livram dos rigores da lei penal, porque usam “botas”. A PEC 37 apenas alonga o cano das botas dos poderosos. Mexer com a estrutura das instituições é algo que faz que você pague por esse acerto depois. Toda vez que o MP acerta, ele cria um déficit de simpatia. É inexorável que o Ministério Público vá fazer inimigos, porque nosso histórico é de que não vai dar em nada.
O MP tem dado preferência às investigações de algum tipo de crime específico? As pessoas dizem que o Ministério Público escolhe o que investigar. Isso é verdade na medida em que ele tem como missão defender os interesses coletivos. Veja os crimes contra a administração pública: quer algo mais nefasto do que a corrupção? Proibir o MP de investigar crimes contra a administração pública é acabar com o MP, torná-lo um órgão burocrático. É evidente que, potencialmente, o Ministério Público deve tutelar os interesses coletivos. Não vamos querer o MP priorizando a investigação de crimes de índole individual.
Defensores da PEC 37 alegam que a Constituição não é clara na definição dos poderes de investigação do MP. Existe, no caso da PEC, uma tendência ou cultura de se valer de termos vagos para se tomar decisões de conveniência? Os que dizem que a Constituição não permite ao MP investigar estão em contradição, pela simples razão de que, se assim fosse, não haveria a necessidade da PEC 37.  No mais, sempre é perigoso aplicar um drible hermenêutico nos dispositivos “incômodos” da Constituição. 
As polícias, principalmente as estaduais, penam com falta de recursos. Mas o MP também têm milhares de investigações atrasadas ou paralisadas. Como lidar com o cenário de as duas instituições terem problemas básicos? Veja como o problema é estrutural. E por que isso se resolveria com a exclusividade da investigação policial? Seguramente 90% dos crimes de furto, roubo e estelionato só funcionam porque há flagrante. Onde não tem auto de prisão em flagrante não se investiga porque a polícia não tem estrutura. Não somos nenhum modelo de combate à impunidade e à corrupção no mundo. Temos de melhorar. Não podemos piorar.
Nenhum governo quis viabilizar o controle externo da polícia. Por que ninguém se propôs a fazer isso? O problema no Brasil é histórico. A nossa sociedade é patrimonialista. Historicamente o direito penal tem servido para condenar os pobres. Há uma nítida relação entre a investigação do Ministério Público e o risco que os poderosos sofrem. Não há uma conspiração, mas há um certo arranjo, uma confluência de interesses para que o MP seja retirado da investigação.
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Máfia do Asfalto

‘máfia do asfalto’, desarticulada em abril de 2013 após uma ação anticorrupção do Ministério Público em doze estados brasileiros, era especializada em desvios nos contratos de pavimentação e recapeamento de asfalto em 78 municípios do noroeste de São Paulo. Dezenove pessoas foram denunciadas pelo órgão por formação de quadrilha, falsidade ideológica e fraudes em licitações. A Justiça aceitou a denúncia e decretou a prisão de treze envolvidos.
As obras públicas recebiam recursos dos Ministérios do Turismo e Cidades, e o esquema de fraudes era centralizado pela empreiteira Demop, que possui mais de trinta empresas parceiras, muitas delas de fachada e todas pertencentes à família Scamatti. Relatórios da operação mostraram que os acusados tinham tentáculos no meio político, sendo citados em escutas telefônicas deputados federais e estaduais de partidos como o PT e o PSDB.
As informações são da Veja.