domingo, 30 de junho de 2013

Sorocaba - Seis meses após acidente, famílias ainda aguardam pela punição dos responsáveis

Familiares das vítimas reclamam de falhas na assistência por parte de empresa responsável pelas obras do shopping
Terezinha passou a ter depressão - Por: Pedro Negrão


      Rosimeire Silva
rosimeire.silva@jcruzeiro.com.br

Passados seis meses do trágico acidente que provocou a morte de sete pessoas, entre elas uma criança de cinco anos, atingidos pelo desmoronamento de parte de um muro onde está sendo construído o Shopping Cianê, no Centro de Sorocaba, as famílias das vítimas ainda esperam a conclusão do inquérito policial que investiga os responsáveis pela tragédia e estão tendo que recorrer à Justiça para ter os seus direitos garantidos. 

Depois de passar pelo trauma de ver as duas filhas e o neto mortos no desabamento, a agente de saúde Terezinha Maria Marquine Airola, 49 anos, está tendo que enfrentar uma verdadeira maratona para ter acesso ao tratamento de saúde e para superar os danos físicos e emocionais causados pela tragédia. Terezinha estava em um carro a pouco metros do local onde o muro desabou e conta que ainda se recorda da cena de seu neto e da filha acenando para ela minutos antes do carro onde eles estavam desaparecer na poeira. "São imagens que não saem da cabeça."

Terezinha conta que até tentou voltar à sua rotina de trabalho, mas não conseguiu e teve que se licenciar. Abatida por uma depressão, ela ainda hoje não consegue dormir sem tomar medicamento. A tensão sofrida também fez com que desenvolvesse uma fibromialgia, provocando dores por todo o corpo. Em fevereiro deste ano, ela conta que a construtora Fonseca & Mercadante, responsável pela construção do shopping, começou a financiar o seu tratamento com uma psicóloga, um psiquiatra e um reumatologista e custear os medicamentos necessários, e também o transporte em táxi. Mas diz que a cobertura do tratamento foi cortada pela empresa, sem nenhuma aviso prévio. "Estou muito decepcionada. Eu tive a minha família destruída e ainda temos que ir na Justiça para fazer com que eles pagem por erro que cometeram." Há cerca de duas semanas, os advogados da família entraram com ações na Justiça para cobrar a indenização para garantir que a empresa se responsabilize por todos os danos causados pela perda dos três parentes no acidente.

Outras história de dor

Essa também foi uma decisão difícil tomada pelo investigador de polícia Eraldo Cleto Alves, 46 anos, que perdeu o filho de 28 anos no desabamento. Eraldo conta que logo depois do acidente, os representantes da empresa os procuraram para oferecer apoio psicológico, mas naquele momento de dor, a opção da família foi se manter reclusa e unida para conseguirem superar juntos a perda e passar por esse momento de luto. Há cerca de um mês, depois da insistência de amigos e familiares, Eraldo disse que concordou em procurar um advogado para que ele entrasse em contato com a empresa para tratar sobre a indenização. "Eu procuro não me envolver com isso, pois é muito difícil mexer com essa situação financeira, o sentimento que dá que é um dinheiro de sangue." 

O que motivou essa decisão, diz ele, é que os responsáveis por essa tragédia, que destruiu tantas famílias, não podem deixar de arcar com o seu erro. Mas a informação passada por seu advogado é que as negociações sobre as indenizações agora estão a cargo de uma corretora de seguros que ofereceu um valor irrisório e não demonstrou disposição para negociar. "Chega a ser revoltante. A única coisa que eu queria era ter o meu filho de volta e isso ninguém mais pode fazer."

O aposentado Samuel Vitorino da Conceição, 52 anos, que também perdeu a filha no desabamento, diz que a sua maior preocupação é o genro, que estava ao lado da esposa no carro no momento do acidente, mas sobreviveu. "Ele está sofrendo muito, entrou em depressão e agora tem evitado falar no assunto. Estamos todos muito abalados ainda." Samuel afirma que a empresa só deu assistência nos primeiros dias após o acidente, mas que agora não recebem nada.

Até o momento, apenas uma das famílias de vítimas do desabamento recebeu indenização por parte da construção, mas o advogado da família informou que ninguém gostaria de se pronunciar sobre o assunto.

Nota oficial

A construtora Fonseca & Mercadante foi questionada, por meio da sua assessoria de imprensa, sobre o motivo das famílias das vítimas ainda não terem sido indenizadas e a suspensão do custeio do tratamento de saúde. Mas de acordo com a assessoria, a empresa se pronunciara apenas por meio da seguinte nota oficial: "desde o primeiro momento, a construtora disponibilizou psicólogos, transporte e o necessário para agilizar cuidados médicos e questões logísticas. Um advogado foi contratado para agilizar o processo de indenizações evitando, assim, os prazos processuais da justiça. Os advogados constituídos pela famílias estão em contato com o advogado da construtora, sendo que um dos procedimentos de indenização já está finalizado".

As informações são do Jornal Cruzeiro do Sul

Salário médio de quem estudou mais de 12 anos cai 8% em uma década

Profissionais mais escolarizados perderam renda porque passaram a enfrentar maior concorrência com a difusão do ensino médio e universitário; salários de quem estudou menos subiram 32%
Luiz Guilherme Gerbelli, de O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - O salário médio mensal dos trabalhadores com mais anos de escolaridade recuou entre 2002 e 2011 no Brasil. A média de salário dos profissionais com 12 anos ou mais de estudo caiu 8% nesse período, de R$ 3.057 para R$ 2.821. A variação já desconta a inflação do período. Isso significa que o poder aquisitivo desse grupo caiu em 10 anos.
Ganho concentrado. Setor de serviços foi o mais favorecido por aumentos salariais - Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão
Ganho concentrado. Setor de serviços foi o mais favorecido por aumentos salariais
O recuo do salário na faixa mais escolarizada ocorreu por diversos motivos. Foi influenciado pelo modelo de crescimento dos últimos anos passando até pelo descompasso entre as profissões escolhidas pelos universitários e a demanda do mercado de trabalho.
Esse descompasso, aliás, ficou mais evidente na área de humanas. "O salário caiu mais na área de humanas, porque houve um aumento no número de profissionais", afirmou Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e responsável pelo cruzamento do avanço médio salarial com os anos de escolaridade. Os dados têm como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
O setor mais educado também viu aumentar a concorrência na última década. Os trabalhadores passaram mais tempo na escola, elevando a fatia dos brasileiros com ensino médio e superior em andamento ou concluído. Ou seja, houve mais ofertas de trabalhadores dessa classe. E muitos profissionais podem ter ingressado no nível mais elevado de escolaridade, mas com o mesmo salário, o que reduz a média de ganho da categoria. "Nos últimos anos, as pessoas ficaram mais tempo na escola e a oferta de profissionais com ensino médio e superior aumentou. O crescimento da escolaridade também foi impulsionado pelo aumento do número de universidades privadas", disse Naercio.
Crescimento. Já a dinâmica da economia brasileira, de impulsionar o setor de serviços, fez com que a maior alta salarial fosse registrada entre os menos qualificados. Logo, cabeleireiros, manicures, pedreiros e jardineiros sentiram mais o ganho salarial. Na faixa dos profissionais com zero a quatro anos de estudo, por exemplo, o aumento médio foi de 32% no período - o salário pulou de R$ 566 para R$ 745. Para os menos escolarizados, também pesou a política de aumento real do salário mínimo dos últimos anos.
"De alguma forma, a economia cresceu na direção desses setores, o que acaba favorecendo alguns tipos de trabalhadores. Grande parte da melhora na base da pirâmide decorre de um aumento da demanda pelo trabalhador menos qualificado", afirmou Fernando de Holanda Barbosa Filho, economista e pesquisador do Ibre. "Não é à toa que o ex-presidente Lula ficou tão popular. Ele introduziu na economia pessoas que, antes, não participavam dela."
Nas classes intermediárias, também houve comportamento distinto nesse período em comparação com a evolução da média salarial por anos de estudo. Os trabalhadores com cinco a oito anos de escolaridade ganharam 21% mais (de R$ 741 para R$ 895) e os que têm entre 9 a 11 anos de estudo viram o salário crescer apenas 3%, de R$ 1.115 para R$ 1.147. A média geral de alta foi de 22% nesses anos.
"O crescimento muito alto dos salários dos menos qualificados é bom para reduzir a desigualdade", disse Naercio. "Mas o ideal seria que o salário de todos os trabalhadores aumentasse e os dos menos qualificados aumentasse ainda mais."
Jovens. O recorte feito com os dados da Pnad levando em conta os anos de estudo mostra que os jovens estão melhor do que os trabalhadores mais velhos. O aumento salarial dos trabalhadores de 17 a 24 anos foi de 33% entre 2002 e 2011, passando de R$ 580 para R$ 773. Para os trabalhadores com 25 a 50 anos, o aumento foi menor, de apenas 14% - de R$ 1.206 para R$ 1.376. "O mercado de trabalho está favorável ao jovem. A taxa de desemprego diminui e o salário real tem aumentado", afirmou Naercio.

As informações são do ESTADÃO