domingo, 25 de agosto de 2013

50 anos após marcha de King, igualdade nos EUA continua distante

RAUL JUSTE LORES
DE WASHINGTON

Os presidentes da American Express, Merck e Xerox são negros. Os prefeitos de Washington, Denver e Filadélfia, de maioria branca, também o são, tal como o governador de Massachusetts.
Também são negros cerca de 10% dos deputados e senadores do Congresso americano, pouco abaixo da porcentagem da população negra no país, que é de cerca de 13% (no Brasil, o equivalente seria se quase 40% do Congresso brasileiro fosse de negros ou mulatos). E o ocupante da Casa Branca é, desde 2009, Barack Obama.

Nesta quarta-feira, os EUA celebram os 50 anos da Marcha sobre Washington, quando o jovem pastor Martin Luther King (1929-68) fez seu mais famoso discurso, "Eu tenho um sonho", diante de 250 mil pessoas.

Martin Luther King Jr.


17.jun.61/Reuters
AnteriorPróxima
Foto do líder negro norte-americano Martin Luther King Jr., em 17 de junho de 1961
Estarão presentes em um evento Obama e os ex-presidentes Bill Clinton e Jimmy Carter. Ontem, milhares de pessoas se reuniram no mesmo local, aos pés do Memorial de Lincoln, num ato cívico para marcar a data.
A marcha de Luther King foi a maior cobrança por direitos civis --dez meses depois, o presidente Lyndon Johnson assinou lei que, na prática, proibiria segregação em locais públicos e privados e, em 1965, a lei de direito ao voto, que derrubou artimanhas que dificultavam registro de negros como eleitores.
Em 1964, Luther King, aos 35 anos, seria o mais jovem premiado com o Nobel da Paz. Em 2008, com a eleição de Obama, analistas se apressaram a anunciar que o país vivia uma fase pós-racial. Apesar do salto econômico, político e cultural da minoria negra, a disparidade com a maioria branca (63% da população) continua grande.
Em 1955, 60% dos negros no país viviam abaixo da linha da pobreza (hoje o mesmo número é de negros de classe média). Naquele ano, a costureira Rosa Parks se negou a ceder seu lugar a um passageiro branco em um ônibus segregado em Montgomery, Alabama, e foi presa --o que detonou a luta dos movimentos civis.
Apenas 4% dos negros tinham diploma superior então (hoje 38% dos negros chegam à universidade). Em 1967, quando finalmente a Corte Suprema invalidou leis estaduais que proibiam o casamento inter-racial, o número de casais mistos era minúsculo --hoje, 24% dos homens negros são casados com mulheres de outras raças.
A discriminação na Justiça ainda é acentuada. Proporcionalmente, o número de presos negros é seis vezes maior que o de brancos. Apesar de o uso de maconha ser similar entre jovens brancos e negros, estes têm um índice quatro vezes maior de detenção pelo uso da droga.
Mesmo com o sucesso de ações afirmativas em incluir mais negros nas universidades, o sistema escolar ainda é financiado localmente --bairros brancos têm escolas melhores (e mais ricas) que as comunidades negras.
A desagregação familiar é bastante maior: 72% dos bebês negros são nascidos fora do casamento (entre os brancos, 29%). Mais da metade será criada apenas pela mãe.
O próprio Obama criticou hábitos enraizados na minoria. "Em muitos lugares, quando um jovem negro tem um livro ente as mãos, seus amigos dizem que ele está 'se fazendo de branco'.
Essa é uma atitude derrotista", criticou ele, que, recentemente atacou o sistema legal do país pela absolvição de um hispânico que matou o adolescente negro Trayvon Martin, 17, achando que fosse ladrão.
Os negros continuam liderando em popularidade na música e nos esportes --Beyoncé, Jay Z e Kanye West são os astros mais populares do país e o seriado de maior audiência da TV aberta, "Scandal", é estrelado pela atriz negra Kerri Washington.
Mas a percepção do racismo ainda é bem diferente: 46% dos negros acham que há muito racismo; entre os brancos, só 16% concordam.
O simbolismo do poder está se adaptando. Ao chegar à Presidência, Obama devolveu o busto do ex-primeiro-ministro Winston Churchill, emprestado pelo governo britânico após o 11 de Setembro.
Em seu lugar, pôs bustos de Lincoln (em cuja Presidência se aboliu a escravidão, em 1865) e Luther King.

Conteúdo Folha de S. Paulo

'Quanto mais violento você é, mais poder tem'

Funcionários da Fundação Casa dizem ao 'Estado' que agressões contra internos são parte de 'mentalidade' e que independem de mudança de regras

LOURIVAL SANTANNA - O Estado de S.Paulo
"Aquilo que apareceu nas imagens é muito pouco. É só o tira pó." A avaliação, de um agente de segurança da Fundação Casa, sobre as cenas de espancamento de adolescentes transmitidas pelo programa Fantástico há uma semana, sintetiza uma prática entranhada e disseminada na instituição, segundo funcionários ouvidos pelo Estado.
Os funcionários, que pediram anonimato por medo de represálias, disseram que, logo depois de chegar às unidades, os internos são espancados pelos agentes de segurança, para "saberem quem manda", e voltam a ser agredidos e ameaçados, quando desobedecem códigos de conduta às vezes descabidos.
"Vou ser sincero", disse um coordenador de segurança que já foi diretor de unidade. "Precisa dar uns empurrões. Se chegar passando a mão na cabeça, já era. Eles tomam conta."
"Não adianta mudar os funcionários ou as regras, se a mentalidade continua", observou um funcionário da área da educação. De acordo com os relatos, os agentes de segurança que se recusam a agredir os menores sofrem assédio moral e recebem notas baixas nas avaliações, das quais dependem sua efetivação no cargo (depois de estágio probatório de três anos) e promoções futuras. "Quanto mais violento você é, mais prestígio e mais poder tem", resume um funcionário. "Se não concorda, é mal avaliado, transferido."
No período em que a unidade Nova Aroeira ficou sob intervenção da Gerência de Segurança Interna, que representa a direção da Fundação, funcionários do Complexo Raposo Tavares, zona oeste de São Paulo, observaram que o rigor das normas e a violência se intensificaram. A intervenção ocorreu em maio, depois que a TV Bandeirantes exibiu imagens que mostravam a influência, sobre os internos, do Primeiro Comando da Capital (PCC), que opera nos presídios. Durou até a semana passada.
Os internos foram divididos em dois grupos e passavam metade do dia presos nos dormitórios, sem fazer nada. Os que pediam livros não recebiam, sob a alegação de que poderiam esconder algo neles. Os internos apanham quando têm reações típicas de adolescentes. Um menino que não teve permissão para ir para uma atividade para a qual iam outros quatro perguntou o que eles fariam. O agente respondeu que não era da sua conta. "Não queria ir mesmo", desafiou o menino. Foi espancado por causa da resposta, relatou um funcionário.
Quando um professor se ausenta da sala de aula, todos os adolescentes são obrigados a encostar a cabeça na carteira escolar, fechar os olhos e ficar nessa posição até ele voltar - o que pode demorar uma hora. Quem desobedece, apanha, segundo um educador. Em algumas unidades, os meninos precisam andar de mãos para trás e cabeça baixa, e chamar os adultos de "senhor". O descumprimento também pode levar a espancamentos.
As agressões ocorrem à noite, depois que os educadores e psicólogos vão embora, dizem os funcionários. Quando promotores visitam as unidades, os diretores escolhem com quais internos poderão falar. E os espancamentos são acompanhados de ameaças de que apanharão mais e vão "mofar" lá dentro se contarem para alguém. Denúncias de maus-tratos feitas há três anos à direção, à Corregedoria e à Ouvidoria não foram apuradas, afirmaram os funcionários, e coordenadores de segurança denunciados são às vezes promovidos a diretores.
Conteúdo ESTADÃO