domingo, 29 de dezembro de 2013

Em dois anos, setor industrial fecha mais de 200 mil postos de trabalho

Emprego. Com indústria desaquecida, trabalhadores migram para o comércio e os serviços, onde ainda há vagas disponíveis; para especialistas, no entanto, o problema dessa migração é a baixa qualidade dos postos de trabalho oferecidos nesses setores

DANIELA AMORIM, IDIANA TOMAZELLI / RIO - O Estado de S.Paulo
Os problemas que a indústria brasileira atravessa já fizeram mais de 200 mil funcionários perder o emprego em pouco mais de dois anos. Os trabalhadores industriais estão migrando para setores que ainda têm fôlego para aumentar as contratações, como o comércio e, principalmente, os serviços, firmando os contornos da mobilidade do mercado de trabalho nacional.
Os números da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, em junho de 2011, a força de trabalho da indústria - que inclui os subsetores de transformação, extrativa e distribuição de eletricidade, gás e água - somava 3,769 milhões de empregados. O resultado foi o maior da série histórica, iniciada em março de 2002.
No mês passado, no entanto, esse número caiu para 3,544 milhões de trabalhadores. Só neste ano, são menos 117 mil vagas nas seis principais regiões metropolitanas do País.
"Hoje se emprega muito menos gente no setor industrial do que há dez anos. Isso é uma tendência de longo prazo. O emprego industrial tende a se reduzir, e a maior parte do emprego disponível é o de baixa qualificação no setor de serviços. Não há nenhuma indicação de que isso possa se reverter (no próximo ano)", afirmou o presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Simon Schwartzman.
Desde o auge do emprego na indústria, na metade de 2011, a população ocupada no setor recuou 6%, apontou o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O cálculo tem como base os dados do IBGE, cuja PME é apurada em seis regiões metropolitanas: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Salvador e Belo Horizonte.
"Ou seja, 225 mil postos de trabalho foram extintos. Esse dado bate com o da Pesquisa Industrial Mensal: Empregos e Salários (Pimes), também do IBGE. A indústria desacelerou a produção e mandou gente embora mesmo", avaliou o economista-chefe do Iedi, Rogério César de Souza.
São Paulo. Na Região Metropolitana de São Paulo, responsável por cerca de 40% da PME, a participação da indústria na população ocupada encolheu 1,1 ponto porcentual em dois anos. O setor detinha 19,2% da população ocupada em novembro de 2011, mas passou a responder por apenas 18,1% em novembro de 2013.
No ápice do emprego industrial na região, verificado em agosto de 2008 - um mês antes da quebra do Lehmann Brothers, que marcou o início da grande crise econômica global -, o setor empregava 1,955 milhão de pessoas. Em novembro deste ano, a indústria local tinha encolhido para 1,762 milhão de funcionários, o equivalente a um corte de 193 mil vagas só em São Paulo.
Por outro lado, a região registrou aumento na participação do comércio, que saiu de uma fatia de 17,7% da população ocupada em novembro de 2011 para 18,1% em novembro último.
Ao mesmo tempo, o setor chamado de outros serviços - segmento que inclui alojamento, transporte, limpeza urbana e serviços pessoais - passou a contar com uma parcela de 18,3% da população ocupada na Região Metropolitana de São Paulo, ante a fatia de 17,2% verificada dois anos antes.
Dessa maneira, a categoria de "outros serviços" ultrapassou a indústria como maior segmento empregador na região, que tem o maior e mais diversificado parque industrial do País.
Adaptação ao setor de serviços nem sempre é tarefa fácil 
Por meses, a indústria conseguiu reter trabalhadores mesmo enquanto havia retração na produção. Agora, o quadro é inverso. Nem a ligeira reação da produção nos últimos três meses foi suficiente para evitar novos cortes.
"A perda na indústria (em novembro) em relação a setembro é significativa. A indústria, por dois meses consecutivos, vem apresentando reduções nos postos de trabalho. Houve queda de 2,4% na população ocupada em outubro (na comparação com o mês anterior) e recuo de 2,5% em novembro", afirmou o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo.
Além do vaivém da produção (desde alta de 2,8% em janeiro até queda de 2,5% em julho), a indústria perde em competitividade. Com o mercado de trabalho aquecido, é inevitável que trabalhadores migrem para outros setores, avalia o economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fernando de Holanda Barbosa Filho. Segundo ele, acaba valendo a lógica do "quem paga mais".
João Saboia, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), pondera, contudo, que trabalhadores da indústria (dispensados ou não) podem até tentar migrar para o setor terciário, mas essa adaptação não é necessariamente fácil.
"Às vezes, o que ele sabe fazer é algo tipicamente industrial." Nesse caso, o trabalhador pode abdicar do mercado formal e se tornar um profissional autônomo, segundo o professor.
O problema do setor terciário, para onde esses trabalhadores estão migrando, é que em geral são empregos de baixa produtividade e de rendimento mais baixo, apontou Saboia. "A massa das vagas no setor terciário está na base da pirâmide." Segundo ele, o setor de serviços responde por dois terços dos empregos no País, e a tendência é de que essa proporção aumente. "Nos EUA, 80% dos empregos estão no setor terciário."

Agressões contra mulheres crescem 15% no período de férias

Apenas 9% das cidades brasileiras contam com algum serviço da rede especializada de atendimento à mulher

Bruna Fasano
Violência contra a mulher
Cerca de 90 mil mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1980 e 2010 (Rudyanto Wijaya/Getty Images)
Durantes os meses de dezembro e janeiro, quando as famílias estão reunidas para celebrar o Natal e a chegada de um novo ano, mulheres veem intensificar-se o sofrimento causado pela violência doméstica. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em novembro de 2012, 11.516 mulheres denunciaram agressões. O número saltou para 13.119 em janeiro de 2013 — uma variação de quase 15%.
“Quando os homens ficam mais em casa, têm mais tempo livre com a família, e há mais chances de agredirem e ameaçarem não apenas a mulher, mas também os filhos”, diz Aparecida Gonçalves, secretária responsável pela área de enfrentamento à violência contra as mulheres, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, órgão com status de ministério.
Assim como no período das férias, os casos de violência doméstica também aumentam durante finais de semana e feriados. E o alarmante é que, quando as mulheres mais precisam denunciar os abusos, as delegacias especializadas simplesmente não funcionam. “O argumento para manter fechadas as poucas delegacias especializadas em atender mulheres é a falta de pessoal e estrutura”, diz  Aparecida. “Mas, se as delegacias de polícia que apuram casos regulares trabalham em esquema de plantão e emergência, o fechamento das delegacias especializadas demonstra que as mulheres são negligenciadas e não têm direito sequer a serem ouvidas”.
A prática contraria a norma técnica estabelecida pela Secretaria de Política para Mulheres que deveria pautar o funcionamento das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher. A regra determina que “o atendimento qualificado deve ser ofertado de forma ininterrupta, nas 24 horas diárias, inclusive aos sábados, domingos e feriados, em especial nas unidades que são únicas no município”. O regulamento é ignorado nas três principais capitais brasileiras. O site de VEJA tentou entrar em contato com essas delegacias em um domingo à tarde em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Em nenhuma delas houve sequer atendimento telefônico. 
Recorde - Cerca de 90.000 mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1980 e 2010, segundo dados do Instituto Sangari, divulgados no Mapa da Violência de 2012. O estudo revela a tendência de aumento dos casos – somente nas últimas três décadas, o avanço na média de mortes foi de 217%. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o Brasil é o 7º país com maior número de mulheres assassinadas no mundo.
Nos últimos dois anos, o governo federal investiu 305 milhões de reais na campanha Mulher, Viver sem Violência. A central de denúncias, que atende pelo número 180, recebeu 25 milhões de reais para ampliar sua atuação. Outros 100 milhões de reais estão sendo investidos em campanhas de conscientização. 
Dificuldade em denunciar – Atualmente, apenas 527 municípios brasileiros contam com ao menos um serviço da rede especializada de atendimento à mulher, conforme monitoramento do governo federal feito entre os anos de 2012 e 2013. Isso representa uma porcentagem ínfima — 9,4% — dos 5.561 municípios brasileiros.
“Elas são agredidas, mal tratadas e até estupradas pelos próprios companheiros. Além de sofrerem fisicamente também passam por torturas psicológicas. Se o posto mais próximo de denúncia e atendimento está a três cidades de distância, a mulher simplesmente não vai atrás dos seus direitos e muito menos denuncia o agressor”, afirma Adriana Alcântara dos Reis, do Centro de Referência Maria do Pará, serviço vinculado à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos.