domingo, 29 de dezembro de 2013

Agressões contra mulheres crescem 15% no período de férias

Apenas 9% das cidades brasileiras contam com algum serviço da rede especializada de atendimento à mulher

Bruna Fasano
Violência contra a mulher
Cerca de 90 mil mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1980 e 2010 (Rudyanto Wijaya/Getty Images)
Durantes os meses de dezembro e janeiro, quando as famílias estão reunidas para celebrar o Natal e a chegada de um novo ano, mulheres veem intensificar-se o sofrimento causado pela violência doméstica. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em novembro de 2012, 11.516 mulheres denunciaram agressões. O número saltou para 13.119 em janeiro de 2013 — uma variação de quase 15%.
“Quando os homens ficam mais em casa, têm mais tempo livre com a família, e há mais chances de agredirem e ameaçarem não apenas a mulher, mas também os filhos”, diz Aparecida Gonçalves, secretária responsável pela área de enfrentamento à violência contra as mulheres, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, órgão com status de ministério.
Assim como no período das férias, os casos de violência doméstica também aumentam durante finais de semana e feriados. E o alarmante é que, quando as mulheres mais precisam denunciar os abusos, as delegacias especializadas simplesmente não funcionam. “O argumento para manter fechadas as poucas delegacias especializadas em atender mulheres é a falta de pessoal e estrutura”, diz  Aparecida. “Mas, se as delegacias de polícia que apuram casos regulares trabalham em esquema de plantão e emergência, o fechamento das delegacias especializadas demonstra que as mulheres são negligenciadas e não têm direito sequer a serem ouvidas”.
A prática contraria a norma técnica estabelecida pela Secretaria de Política para Mulheres que deveria pautar o funcionamento das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher. A regra determina que “o atendimento qualificado deve ser ofertado de forma ininterrupta, nas 24 horas diárias, inclusive aos sábados, domingos e feriados, em especial nas unidades que são únicas no município”. O regulamento é ignorado nas três principais capitais brasileiras. O site de VEJA tentou entrar em contato com essas delegacias em um domingo à tarde em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Em nenhuma delas houve sequer atendimento telefônico. 
Recorde - Cerca de 90.000 mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1980 e 2010, segundo dados do Instituto Sangari, divulgados no Mapa da Violência de 2012. O estudo revela a tendência de aumento dos casos – somente nas últimas três décadas, o avanço na média de mortes foi de 217%. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o Brasil é o 7º país com maior número de mulheres assassinadas no mundo.
Nos últimos dois anos, o governo federal investiu 305 milhões de reais na campanha Mulher, Viver sem Violência. A central de denúncias, que atende pelo número 180, recebeu 25 milhões de reais para ampliar sua atuação. Outros 100 milhões de reais estão sendo investidos em campanhas de conscientização. 
Dificuldade em denunciar – Atualmente, apenas 527 municípios brasileiros contam com ao menos um serviço da rede especializada de atendimento à mulher, conforme monitoramento do governo federal feito entre os anos de 2012 e 2013. Isso representa uma porcentagem ínfima — 9,4% — dos 5.561 municípios brasileiros.
“Elas são agredidas, mal tratadas e até estupradas pelos próprios companheiros. Além de sofrerem fisicamente também passam por torturas psicológicas. Se o posto mais próximo de denúncia e atendimento está a três cidades de distância, a mulher simplesmente não vai atrás dos seus direitos e muito menos denuncia o agressor”, afirma Adriana Alcântara dos Reis, do Centro de Referência Maria do Pará, serviço vinculado à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Segurança é reforçada em zona de conflito com índios na Amazônia

Exército e polícias iniciam buscas por três desaparecidos em território indígena. Moradores incendiaram sede da Funai e destruíram pedágio na BR-230

Revoltados com o desaparecimento de três homens, moradores de Humaitá atearam fogo na sede da Funasa e da Funai na noite de quarta-feira (25) e destruíram 13 veículos e três barcos usados no transporte de índios. Segundo a Polícia Militar, cerca de 3.000 pessoas participaram do protesto - 27/12/2013
Revoltados com o desaparecimento de três homens, moradores de Humaitá atearam fogo na sede da Funasa e da Funai na noite de quarta-feira (25) e destruíram 13 veículos e três barcos usados no transporte de índios. Segundo a Polícia Militar, cerca de 3.000 pessoas participaram do protesto - 27/12/2013 (Raolin Magalhães/Folhapress)
Soldados do Exército e agentes de forças policiais reforçaram neste sábado a segurança na cidade de Humaitá, no Amazonas, onde índios e moradores entraram em conflito nesta semana, depois do desaparecimento de três homens no último dia 16. A operação policial tem objetivo de evitar novos confrontos na região e buscar  desaparecidos dentro do território indígena. Cerca de 400 agentes de segurança participarão da força-tarefa, entre soldados do Exército e agentes da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Militar do Amazonas.
Os moradores da cidade atribuíram a índios da etnia Tenharim a responsabilidade pelo sumiço de Aldeney Ribeiro Salvador, técnico da Eletrobrás, do professor Stef Pinheiro e do comerciante Luciano Ferreira Freire. Em protesto pelo desaparecimento, um grupo incendiou na quarta-feira a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), um barco e carros do órgão. Na quinta-feira, eles destruíram um ponto de controle que os índios usavam para cobrar pedágio dos veículos que passam em uma estrada que cruza a reserva dos Tenharim. Cerca de 140 índios estão abrigados em um quartel do Exército para evitar novos conflitos.
“Houve retaliação da população por causa do sumiço das três pessoas, alguns atos de vandalismo, mas com o envio das forças federais a situação na cidade está controlada. Esses problemas estão sob controle”, disse o agente da PF de Rondônia Mário de Azevedo Marcondes Filho à Agência Brasil.
Os três desaparecidos teriam sido vistos pela última vez de carro, perto do quilômetro 85 da BR-230, a Transamazônica, no sul do Estado. A informação no município é que os homens teriam sido sequestrados e mortos pelos índios Tenharim, que assim vingariam a morte do cacique Ivan Tenharim. Segundo a versão oficial da morte do cacique, ele sofreu um acidente de moto na rodovia. Para os índios, ele foi assassinado por descontentes com a presença deles nas cidades e com a cobrança de valores entre 15 e 100 reais de pedágio para passar pelas terras da reserva. Os índios negam a acusação de sequestro. 
Ruralistas – Entidades ligadas aos produtores rurais também divulgaram uma nota cobrando ações do Ministério da Justiça e da Funai em Humaitá. Destacando o "clima de guerra" na região, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Federação de Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas (Faea) criticaram a forma como o governo federal conduz a questão da demarcação de terras indígenas no país.
"Há tempos, a CNA vem alertando a nação para as consequências danosas da forma irresponsável e omissa com que o Ministério da Justiça e a Funai têm tratado a questão indígena no Brasil. A omissão e os equívocos das autoridades é que têm fomentado o conflito de forma artificial e elevado a tensão a um grau inédito no país", acusa a confederação, presidida pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO).
A Faea cobrou das autoridades "medidas urgentes" para localizar os desaparecidos e acusou a Funai de omissão no caso. A federação afirma que não aceita a cobrança de pedágio em trecho da Transamazônica, "que tem afrontado, humilhado e provocado insegurança às pessoas que trafegam nesse trecho da rodovia, em flagrante ato inconstitucional contrário ao direito de ir e vir dos brasileiros".
Em nota, a Funai repudiou os "atos de vandalismo" cometidos pela população de Humaitá e esclareceu que não compete ao órgão investigar o desaparecimento de pessoas. "Solicitamos que a população atue no sentido de contribuir também com a reversão desse quadro perigoso e negativo, com a liberação dos acessos aos municípios da região para que as autoridades policiais possam realizar seus trabalhos e tranquilizar todos os moradores", disse a Funai.
(Com Efe e Estadão Conteúdo)