terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Colapso nas cadeias reflete décadas de gestão Sarney

Grupo político de José Sarney se aproxima de cinco décadas no poder. E os maranhenses, já acostumados aos péssimos serviços públicos, agora estão à mercê de facções criminosas

Gabriel Castro, de Brasília
José Sarney, Roseana Sarney, Edison Lobão e Lobão Filho
CLÃ – José Sarney, Roseana Sarney, Edison Lobão e Lobão Filho (Fotoarena e Divulgação Governo do Estado do Maranhão e ABr e Agência Câmara)
A sequência de horror registrada nos últimos vinte dias no Maranhão chocou até mesmo uma sociedade já acostumada ao noticiário de crimes brutais. O banho de sangue, com imagens depresos decapitados e esquartejados na penitenciária de Pedrinhas, na Grande São Luís, já deixou 62 detentos mortos no período de um ano. O retrato da barbárie nas cadeias maranhenses inclui ainda estupros de familiares de presidiários nos dias de visitas íntimas. Na última sexta-feira, a selvageria ultrapassou os muros do presídio: ataques a ônibus e delegacias espalharam terror nas ruas de São Luís. Uma criança de 6 anos morreu queimada. O criminoso obedecia a uma ordem de dentro do presídio de Pedrinhas.
Políticos costumam culpar os antecessores pelos problemas crônicos enfrentados por suas gestões. Mas a governadora Roseana Sarney (PMDB), no quarto mandato no Maranhão, não poderá fazê-lo: com exceção de um período de dois anos, o Estado é governado desde 1966 pelos integrantes do clã político de José Sarney.
O único revés do grupo ocorreu em 2006, quando Jackson Lago (PDT) derrotou Roseana nas urnas. Mas ele só resistiu até o começo de 2009, dois anos depois da posse: a Justiça Eleitoral tirou o cargo do pedetista sob a acusação de compra de votos. Roseana herdou o mandato, e venceu também as eleições de 2010.

Sarney nunca fez oposição a um presidente da República: apoiou a ditadura militar enquanto lhe interessou e foi pulando de barco até firmar a improvável aliança com o PT de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Dos dois, recebe deferências – e o poder de nomear afilhados em órgãos importantes da administração federal.

Enquanto isso, os maranhenses convivem com um cenário desolador: segundo dados do Atlas do Desenvolvimento, o Estado tem o penúltimo lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à frente apenas de Alagoas. A renda per capita, de 348 reais, é a menor do país. Apenas 4,5% dos municípios do estado têm rede de esgoto.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 20,8% dos maranhenses eram analfabetos em 2012. Pior: o número significa um aumento em relação a 2009, quando 19,1% da população não sabiam ler e escrever. Ou seja, durante o governo de Roseana, a situação se agravou – o Maranhão foi o único Estado do Nordeste que regrediu no período.
Um dos poucos índices nos quais o Maranhão não se destacava negativamente no plano nacional era a violência. Mas, como mostra o episódio de Pedrinhas, isto também é passado: entre 2000 e 2010, a taxa de mortes por armas de fogo no Estado subiu 282%. O surgimento de facções criminosas tornou mais evidente o fracasso do governo nessa questão. O governo do Estado falhou ao evitar o conflito sangrento entre criminosos encarcerados e novamente depois, ao tentar debelá-lo. Por fim, receberá ajuda do governo federal para resolver a situação, com a transferência de detentos para outras unidades prisionais do país.
O Maranhão já era pobre quando Sarney assumiu o poder. E sabe-se que não é fácil resolver o problema do subdesenvolvimento crônico. Mas, em 2014, isso já não pode ser usado como desculpa.
Mais informações e detalhes sobre a matéria acesse o link da VEJA

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Por falta de médicos, pai quebra móveis na recepção de hospital


Médicos com salários atrasados decidiram atender apenas emergências - Adival B. Pinto/Arquivo JCS


O pai de um menino de nove anos viveu um momento de fúria e quebrou os móveis da recepção da Santa Casa no domingo (5), ao saber que seu filho não passaria por consulta. Os médicos deixaram de atender os pacientes de planos particulares do hospital por falta de pagamento dos salários (leia aqui).

O metalúrgico procurou o atendimento do hospital pelo convênio da empresa onde trabalha. Segundo ele, a criança apresentava dores abdominais. Ao chegr na recepção, foi informado que o Pronto Atendimento (PA) não estava realizando consultas por falta de médicos e que ele deveria dirigir-se a alguma clínica também conveniada ou, então, a uma das unidades pré-hospitalares mantidas pela Prefeitura de Sorocaba. Inconformado, passou a discutir com funcionários e arremessou uma cadeira contra a parede atrás dos guichês, danificando a cadeira. Também usou um extintor de incêndio para danificar objetos e arremessá-lo contra uma porta.

De acordo com a Santa Casa, na tentativa de resolver a questão, foi solicitada a presença de um pediatra que estava de plantão no Pronto Socorro Municipal, anexo à Santa Casa, para atendimento à criança. O homem foi convencido a dirigir-se ao Pronto Socorro Municipal, onde seu filho foi atendido por pediatra. Passou por exames, incluindo raio-X. Conforme o hospital, os exames constataram que não havia gravidade no caso. A criança foi medicada e dispensada.

Os médicos da Santa Casa deixaram de atender os pacientes de convênios no PA e em consultas marcadas no hospital desde o último dia 2. Em função da falta de pagamento dos salários, mantiveram apenas atendimento nos casos de emergência, o que inclui fraturas, suspeita de AVC e outros casos de maior gravidade.

"Instabilidade financeira"

Por meio de sua assessoria, a Santa Casa de Sorocaba informou lamentar o ocorrido, e ressaltou ter procurado, "independente da atitude intempestiva do cliente, adotar todas a medidas possíveis para o atendimento médico à criança, o que acabou acontecendo".

Ainda segundo a assessoria, "a Santa Casa de Sorocaba atravessa um momento de instabilidade financeira o que levou à paralisação dos médicos que prestavam atendimento aos convênios, preservando-se apenas a atenção aos casos de emergência. A administração da Santa Casa está empenhada na busca do equilíbrio financeiro do hospital visando à resolução dos problemas no menor espaço de tempo possível".

A reportagem tentou falar com o metalúrgico, mas ele estava em horário de trabalho e não pôde atender nesta tarde. Entretanto, por telefone a mãe da criança confirmou o ocorrido.

Mais confusão

Em reunião com o sindicato nesta tarde, funcionários do setor administrativo e serviço de apoio, como enfermeiros e auxiliares, afirmaram que estão com medo de trabalhar. De acordo com alguns trabalhadores, houve novo tumulto nesta segunda-feira, com pacientes revoltados com a falta de atendimento. Diante do clima de ameaça, o sindicato informou que irá solicitar à diretoria do hospital a contratação de segurança particular até a resolução do problema.